O Torpor da Alvorada - Prévia



Era uma tarde quente de domingo e Adam estava reunido com seus amigos mais próximos em casa. Não importava em que época da vida, essas reuniões sempre eram divertidas. Ele não contava com muitos amigos, mas gostava dos que tinha e os queria por perto sempre que possível. Ainda mais nesses últimos anos em que tem morado sozinho.
O assunto da vez eram as lembranças de escola, muitas das quais geram risadas em todos até hoje. Cash contava, entre pausas para rir, o episódio em que Andrew ficou preso no banheiro feminino. Todos já sabiam a história, mas era ótimo ouvi-la de novo.

Eles apenas riam enquanto Andrew tentava corrigir os fatos. — Quem disse que eu entrei lá de propósito? — todos negavam com a cabeça fingindo seriedade. Cash riu e continuou a história até que a cena congelou. Todos pararam.
— O que foi? — questionou Adam se aproximando de Cash. Seu rosto, agora estático, começava a se desmanchar como uma pintura fresca sob a chuva — Seu rosto tá… derretendo?!


Capítulo I - Um Novo Dia
Adam acordou assustado na penumbra de seu quarto, sentia um gosto forte de sangue na boca e seus ouvidos latejavam em um zumbido constante que o atordoava. Sua perna estava presa por sua estante, uma peça de madeira muito pesada agora caída sobre ele, e uma de suas mãos, já dormente, estava coberta por toda uma coleção de livros que se espalhava ao seu redor.

O cômodo estava dominado pela fumaça e um cheiro desconhecido invadia seus pulmões. A medida que percebia o caos ao redor, sua mente era, aos poucos, tomada pelo pânico.

Ouvia gritos incompreensíveis ecoando do lado de fora e um forte estalar de madeira. Sem forças para se mover, pensava no que diabos teria acontecido. Sua mente viajava imaginando as possíveis tragédias.

Em seu primeiro momento de lucidez, quando o instinto de sobrevivência lhe trouxe de volta à realidade, Adam percorreu o corpo tateando os bolsos com a mão livre em busca de seu celular. Sua perna doía e ele precisava de ajuda. Sem sorte, sentiu o colchão sob os dedos e não encontrou um só bolso em suas vestes. Estava preso em sua cama e seu pijama nem sequer tinha bolsos para encontrar.

O som de estilhaços seguiu o estalo da madeira e a fumaça, que agora libertava seus pulmões, saia vagarosa pela janela quebrada.

— Talvez alguém veja a fumaça agora. — pensou aliviando o peso da cabeça sobre o colchão.
Quando seus olhos se adaptaram à pouca luz e a fumaça permitiu sua visão, Adam viu sua perna prensada, entre a estante e o colchão macio. Aquilo o tinha salvado de um ferimento pior.
— Se eu ao menos pudesse derrubar o estrado, estaria livre. — ponderou enquanto encarava suas pernas, como se pudesse solta-las apenas com o olhar.
Reunindo sua força, que aos poucos retornava, começou a golpear o colchão com o braço livre e se sacudir como podia. A cama estalava em resposta aos golpes, mas não dava sinais de que cederia. 
— Por que eu tinha que comprar a melhor cama da loja? Morra confortável agora seu idiota. — tempesteava contra si mesmo enquanto observava a cama resistir bravamente a seus golpes que, amenizados pelo colchão, se mostravam inúteis.
Sua esperança já se esvaia quando o estrado cedeu. Adam caiu, rolando sobre o colchão, trazendo consigo os livros e a estante que, agora sem apoio, voltava a despencar em sua direção. Por sorte, ou destino, a estrutura que restava da cama manteve o móvel no lugar. Adam mal pôde reagir aos livros, que rolavam colchão abaixo, golpeando-o. Fechou os olhos com toda a força que dispunha, cerrou os punhos e franziu o rosto até que parassem de ataca-lo.
Respirou por um momento e rolou por baixo do amontoado de madeira que antes fora sua cama. Levantou-se com dificuldade enquanto se apoiava na parede. Sua perna latejava com a liberdade e, ainda dormente, beliscava seus nervos sempre que punha o peso sobre ela.
— Alguém deve ter chamado socorro! Se eu ao menos puder chegar à rua… serei socorrido — a esperança ressurgia, ainda que não ouvisse sirenes lá fora.
Forçou uma caminhada respirando rouco em meio à tosse. Sua visão piscava a cada passo e seus pés pareciam incapazes de voltar ao chão sempre que os levantava. A fumaça que invadia o quarto se espremia sob a porta e um ar quente incomum emanava da madeira. Adam aproximou-se para abri-la, mas a maçaneta brilhava avermelhada exibindo o calor que carregava. Sem ver opção e sentindo o desespero nublar seus pensamentos, Adam deus dois passos para trás e se arremessou de ombro contra a porta, que cedeu, lançando-o para fora.
O corredor, coberto pelo fogo, era irreconhecível. Parte da passagem estava bloqueada pela mobília se desmanchando e o incêndio, que a consumia com ferocidade, caminhava ameaçador em direção ao quarto.
Adam se levantou com um gemido apoiando-se nos joelhos e mancou, desesperado e aos tropeços, até a cozinha. Ela estava, ao menos por hora, intacta. Arrastou-se até a janela, no fim do cômodo, e a cruzou com a cabeça para gritar por ajuda.
Tudo que viu foram vários homens fardados, com alguma coisa lhes cobrindo o rosto, e de armas em punho caminhando pela rua escura ao redor de um caminhão blindado enviesado na pista.
— Soldados? Por quê? — questionava intrigado antes de se pôr a gritar — Não importa, vão me ajudar se me ouvirem. — deduziu.
Antes que reunisse seu fôlego para clamar por ajuda, o caminhão, que bloqueava parte de sua visão, se moveu. Adam então pôde ver a porta dos Smith, os novos vizinhos da frente, se abrindo.
Um grupo de soldados saiu da casa, marchando. Um deles, arrastava pelos cabelos uma jovem mulher aos prantos enquanto proferia a plenos pulmões, numa voz abafada, mas poderosa, palavras agressivas em algum outro idioma para os soldados ao lado, que o esperavam. Um segundo, já na calçada, apontava para o caminhão, que estacionava em frente enquanto suas portas se abriam. Dentro dele havia grandes jaulas metálicas posicionadas como livros, lado a lado.
O soldado da calçada fazia gestos autoritários com as mãos e golpeava, com um dos pés, o homem caído à sua frente, mas ele não se mexia. Atrás dele, um terceiro soldado segurava orgulhoso um pequeno mastro com uma bandeira irreconhecível tremulando na ponta. Ele deu um passo para o lado, permitindo que a porta do motorista se abrisse, e olhou para a casa em chamas.
Adam se arremessou para dentro prostrando-se de joelhos atrás da janela. Ele mal respirava, temendo que o chiado em seu pulmão os atraísse. De olhos fechados, apenas desejava acordar em sua cama, livre daquele pesadelo.
Aos poucos, enquanto se espremia contra o chão, os sons desesperados diminuíram, sendo logo substituídos por motores rugindo. O grupo de soldados partiu em um comboio de caminhões que, pelo que entendeu, levavam engaiolados os ex-vizinhos de Adam, que ainda tentava entender o que havia visto.
— Houve uma guerra de ontem pra hoje? E o pior, nós perdemos? — duvidava ao som distante dos motores.
A imagem violenta na casa dos Smith que se repetia em sua mente e a perplexidade pelo que estava acontecendo congelaram-no de pavor, sabe-se lá por quanto tempo, em meio as chamas que agora invadiam a cozinha consumindo o assoalho.
Sua mente, em choque, já muito se distanciava quando o som das estruturas ao redor se rompendo golpeou-a, como um súbito banho frio numa noite de inverno, despertando-o de seu pavor. As paredes caiam revelando o gramado vizinho por trás das chamas. O incêndio ensejava sua saída, como um predador sádico, que provoca sua presa indefesa a lutar.
Olhando a saída oferecida pelo fogo, seu coração palpitava, mas seu corpo parecia incapaz de se mover. Lembrou de seus amigos, sua família… — Estariam bem? — indagou, ainda sem esboçar reação sequer. Apenas quando a dúvida sondou sua mente e a ideia de nunca mais revê-los feriu sua alma, que todos os seus instintos gritaram: sobreviva!
Adam reuniu o fôlego que lhe restava e, ignorando a perna dolorida, desatou a correr, desvairado, para o lado de fora. Desafiando o fogo a impedi-lo. O que para sua surpresa, não aconteceu.
Do lado de fora, a imagem desoladora de caos e destruição se concretizou. Nada restou do que Adam chamava de vizinhança além de destroços, alguns carros destruídos e casas devastadas.
Algum veículo muito grande devia ter empurrado todos os carros para as calçadas, destruindo alguns postes, e diversos objetos pessoais junto aos móveis aleatórios pontilhavam os gramados como se tivessem caído do céu. As casas, que podiam ser vistas dali e se mantinham de pé, tinham suas janelas estilhaçadas e as portas haviam sido derrubadas. A quietude das ruas, quebrada apenas pelo som da madeira estalando sob o fogo, e o cheiro de queimado que ainda impregnava o ar ao redor cortejavam as labaredas em sua dança macabra tragando o que restava.
Sentado na grama, sob uma árvore, Adam assistiu sua casa partir enquanto recuperava o fôlego longe da fumaça. Ele pressionava as têmporas com as mãos e, vez ou outra, encarava a luz do fogo na grama, tentando recuperar seu raciocínio.
— Sobrevivi!? Eu… eu realmente sobrevivi!? — pensava aliviado olhando para o fogo vencido e as casas destruídas ao redor — Será que… mais alguém ainda está aqui? Talvez precisando de ajuda!? — constatou ao ver que a sua não era a única casa incendiada, algumas brilhavam na noite com as labaredas fugindo pelas janelas.
Mal havia se recuperado, e já se levantava, em meio a escuridão da noite ainda iluminada pelas chamas, em busca de possíveis sobreviventes. Guiado por seu senso de dever com seus vizinhos, sem pensar duas vezes, seguiu apressado para a casa seguinte.
A casa ao lado, dos Garcia, estava quase intacta.
— Espero que seja um bom sinal… — pensou, cruzando o jardim na entrada enquanto se esquivava de uma bicicleta abandonada no gramado.
A porta derrubada para dentro revelava uma sala revirada de cima a baixo. Móveis tombados e diversos objetos jogados no chão não chamavam tanta atenção quanto a poça de sangue que brilhava oscilante no corredor à frente. Adam já havia visitado os Garcia, o corredor levava aos quartos da casa.
— Olá! — gritou. — Alguém aí? — mas nada nem ninguém respondia ao seu chamado.
Aos poucos, receoso do que poderia encontrar, Adam seguiu o sangue até o quarto. A porta estava trancada e uma luz alaranjada oscilava, escapando pela soleira. Quanto mais se aproximava, mais quente o corredor se tornava. Algo estalou sob seus pés, haviam latas vazias caídas pelo corredor.
— Olá! — insistiu, parando por um segundo, mas não houve resposta.
Se aproximando, e impedido de tocar na porta por conta do calor, Adam pegou a primeira coisa pesada que viu, uma pequena estatueta de pedra caída no chão, e arremessou contra a porta. Já se arrependia de tê-lo feito quando a porta, consumida pelo fogo, se despedaçou revelando um quarto rosa enfeitado com pequenos pôneis coloridos carbonizados e uma pilha de objetos, no centro, envolta em chamas. Havia bonecas enormes derretendo e seus olhos, já perdendo a cor com a tinta se desfazendo, as deixavam quase lagrimejantes, quase humanas. Por um instante, uma delas até mesmo pareceu se mover, tão pouco e tão rápido que poderia não ter acontecido.
— É só o fogo Adam! Só fogo! — repetia.
A imagem o paralisava em frente ao quarto e a forma que o fogo assumia se tornava cada vez mais aterrorizante. Seria impossível entrar lá e sair vivo. Expulso pelo calor, Adam recuou para a rua sem querer descobrir o que queimava lá dentro. Afinal era onde o sangue o havia levado. No fundo, ele suspeitava, mas não queria descobrir.
Atordoado e ainda muito cansado, ele vagou pelas calçadas gritando por sobreviventes. Tendo berrado em todas as casas dos arredores sem sucesso, enfim, perdeu a esperança de encontrar quem quer que fosse e voltou à sua casa, cujo incêndio já se esvaia, na esperança de que algo pudesse ser recuperado.
— Não sobrou nada… nem ninguém. — lamentou para si mesmo vendo a pilha de destroços carbonizados que restara em seu endereço.
Como era óbvio, pelos postes caídos, que um telefone não era opção e seu celular provavelmente foi incinerado, Adam vestiu um par de botas que estava sobre a grama e começou uma lenta e manca caminhada até a delegacia local.
— Por que não vieram nos socorrer? — pensou. — Todo esse fogo e nem sequer um carro dos bombeiros? Quanto tempo eu dormi? Não pode ter havido uma guerra aqui sem que eu percebesse! Mas, então quem eram aqueles soldados? E por que diabos colocavam pessoas em gaiolas? — divagava relutante e apavorado com o que acontecera.
— Na polícia terão uma explicação! Se bem que… por que eles já não estão aqui? Onde estão todos? Eles… aqueles soldados… os levaram? — refletia, cada vez mais temeroso ao passar pelas muitas casas abandonadas no caminho.
Sua perna agora voltava a doer, Adam havia esquecido por completo de que mancava. Uma lesão, que antes se mostrava tão incapacitante, agora, com tudo que aconteceu, era tão… ignorável.
Ao longe, o prédio da delegacia já se pronunciava no horizonte, sua silhueta desenhada pelo recente nascer do sol. Uma visão que, aos poucos, recuperava sua esperança. Era um novo dia afinal.
* * * * *
Esse trecho é parte do livro "O Torpor da Alvorada", publicado e vendido pela Amazon.
Se tiver gostado e ficado curioso para o restante da história, o que eu espero, é só clicar no banner e você será redirecionado para a loja.

Boas leituras!

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